Conheça a história de Matias-Há histórias que não começam com palavras. Começam com o silêncio. | Programas

Conheça a história de Matias-Há histórias que não começam com palavras. Começam com o silêncio.

Categoria: Rubrica porta da criança Data: 04/02/2026 14:11 Views: 22

HÁ HISTÓRIAS QUE NÃO COMEÇAM COM PALAVRAS.
COMEÇAM COM O SILÊNCIO.**
Na manhã de 02 de fevereiro de 2026, saímos da cidade de Maxixe com destino à localidade de Mongué. Foram cerca de 40 minutos de estrada, por caminhos de terra que, a cada quilómetro, nos afastavam do movimento urbano e nos aproximavam de uma realidade simples, dura e profundamente humana.
A paisagem mudava. O calor aumentava. O silêncio começava a falar.
Cada curva da estrada não representava apenas distância geográfica, mas um convite à escuta, à empatia e à aprendizagem. Ao chegar à comunidade, percorremos casas simples, algumas aparentemente vazias, onde o abandono e a pobreza se fazem sentir sem precisar de palavras.
Em determinado momento, parámos diante de uma casa que parecia deserta. Mesmo assim, insistimos. Porque quem acredita que cada criança importa, não desiste à primeira porta fechada. E foi essa insistência que nos conduziu ao lugar certo: a casa de Matias.
Ali encontrámos a avó Albertina, sentada, tentando proteger-se do calor intenso. Com calma e respeito, sentámo-nos para conversar. Aos poucos, a história foi-se revelando — uma história marcada por dor, perdas profundas e, ao mesmo tempo, por uma força silenciosa que resiste todos os dias.
Enquanto conversávamos, Matias não estava em casa. Estava no mar, a fazer pesca artesanal. Não por lazer. Não por escolha. Mas para ajudar a avó a sobreviver.
Matias carece de quase tudo o que uma criança precisa para viver e estudar com dignidade. Não tem cadernos suficientes, não tem pasta escolar, não possui uniforme completo, não tem sapatos adequados. As roupas que usa estão rasgadas, não por descuido, mas por falta de alternativa. Ele dorme no chão, sem cama, sem cobertor — a avó improvisa com capulanas.
A história da sua origem é ainda mais dura.
A mãe de Matias engravidou ainda adolescente, aos 17 anos. Deu à luz gémeos por cesariana. Um deles perdeu a vida no parto. Pouco tempo depois, a jovem mãe adoeceu gravemente durante uma longa internação no Hospital Provincial de Inhambane. Nunca mais recuperou. Faleceu, deixando para trás um bebé recém-nascido… e uma avó que assumiu tudo sozinha.
O pai da criança nunca foi identificado. Nunca esteve presente. Nunca assumiu responsabilidade.
A avó, sem escolaridade formal, cuidou de Matias como pôde. Recebia leite como apoio hospitalar, alternava com o pouco que conseguia. O avô, antes de falecer, trabalhava na África do Sul e enviava algum dinheiro para sustento. Quando ele também partiu, Albertina ficou sozinha com o neto.
Hoje, Matias tem 12 anos, frequenta a 6ª classe e sonha em ser polícia, para proteger vidas — mesmo quando a dele nunca foi protegida desde o início.
Ele perdeu:
A mãe ao nascer
O irmão gémeo no mesmo dia
O pai, que nunca existiu na sua história
Mas ganhou uma avó. E com ela, uma luta diária pela sobrevivência.
A casa onde vive é precária e frágil, adaptada pelo avô antes de morrer. Durante as cheias de 2026, a água entrou. Não há segurança, nem conforto. A avó não trabalha fora. Vive da machamba, cultivando o pouco que consegue para alimentar o neto. Muitas vezes, a alimentação resume-se a verduras e tapioca.
Na escola, Matias enfrenta humilhações silenciosas:
Falta de uniforme
Falta de pasta
Falta de cadernos grandes exigidos pela escola
Falta de canetas
Falta de sabão para manter a higiene
Mesmo assim, ele vai. Porque o governo exige que a criança vá à escola. Mas ninguém pergunta como.
Para ajudar em casa, Matias pesca. Entra no mar com maré baixa e alta. Não por brincadeira, mas por sobrevivência. Ele carrega nas mãos o peso que não deveria carregar aos 12 anos.
Esta não é apenas uma história de pobreza. É uma história de direitos fragilizados.
Toda criança tem direito:
À educação
À dignidade
À proteção
À infância
Como estudar sem material? Como aprender com fome? Como sonhar quando se dorme no chão?
Matias não pede luxo. Ele pede o básico. O justo. O que toda criança merece.
APELAMOS COM URGÊNCIA AO APOIO PARA:
Uniforme escolar
Sapatos
Cadernos e material escolar
Pasta escolar
Roupas básicas e dignas
Apoio à permanência na escola
Melhoria mínima das condições de vida
Apoiar Matias é:
Garantir que ele continue a estudar
Reduzir o peso da sobrevivência sobre uma criança
Proteger o futuro antes que ele se perca no presente
Matias ainda sonha. Mas sonhos sem apoio tornam-se silêncio.
E em Mongué, o silêncio fala alto.
Hoje, ele chama por nós.
A pergunta já não é se Matias precisa de ajuda.
A pergunta é: quem vai responder?

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